terça-feira, 28 de agosto de 2007

Helianthus


Aonde me leva
essa procura por cura
Choramingo por dengo
Em minha loucura
Viro semente de mim
Necessitada de terra fértil
Sou polén espalhado
E em terreno acidentado
Sou projeto
De flor híbrida
Estranha e bela
Desconstruída
Muda de erva daninha
Desenchabida
Que na espera se aninha
E cresce, singela

28/08/07

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Veneno em infusão contínua...


Esse seu fogo fluído de água viva
Queima e não arde
Cora minha pele alva
E não me lesa
Que em minha cútis frágil
Eu guardo teu antídoto
E em minha alma calejada
Sempre o teu vício...

27/08/07
"Deixei atrás os erros do que fui
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho
No episódio que fui e na paragem
No desvio que foi cada vizinho

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua"

Fernando Pessoa

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

O dilema


Há dias que vivo a vida de outra
Pesada e plana
E calma
Sorriso franco
De mulher realizada
No funda era minha alma
Pedindo paz e sossego
Agora volto a mim
Ao meu pleno desassossego
O sorriso ainda franco
Aliviado mesmo
Insatisfeito

20/08/07
Imagem: Pierre Verger

"Você pára
afim de ver
o que te espera

Só uma nuvem
te separa
das estrelas"

paulo lemisnki

domingo, 12 de agosto de 2007

Mal passada

Essa aflição...
Essencial como um mau pressságio
Me dá a dimensão exata
Do teu descaso
De tua amargura e solidão
Eu quero perder teu contato
E esquecer tua descompreensão
Ser firme, ser não
Se chega, já te destrato
Me vingo da tua falta de tato
No meu bem querer abstrato
Onde saltas pro alto
E te faltas o chão

12/08/07


"Eu queria querer te amar o amor
Constrir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou
Não te quero e não queres com és
Oh! Bruta flor do querer
Oh! Bruta flor, bruta flor..."

Caetano veloso- O quereres

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Soneto de separação

"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente"

Vinícius de Morais- Antologia Poética

Fragmentos nulos


É tantas e tão pouca
Tão leve e tão solta
Que lama lhe cobre
E vento lhe acaricia
Agora ela é nobre
rica e bendita
Pulsa, com maestria
Mas de repente descobre
Mil portas
E já se ia
Ia no areal
Na venda
Já se dizia:
Dê-lhe seu carnaval
Não foi por mal
Que vinha o dia
Caminhe o que é normal
E afaste o mal
Porque é Maria

07/08/07

"Pousa-se toda Maria
No varal das vinte duas fadas nuas loirinhas
Foste besouro Maria
E a aba do Pierrot descosturou na bainha
(...)
Sou a pessoa Maria
Na água quente e boa gente tua Maria
Voa quem voa Maria
e a alma sempre boa sempre vou a Maria
(...)
Tua pessoa Maria
Mesmo que doa Maria
Tua pessoa Maria
Mesmo que doa
Maria"

(Maria de Verdade- Marisa Monte)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O bêbado e a equilibrista


Descompreendida ela espera
Que ele entenda
E lhe explique
Ele relax
De pileque
Pensa na gasolina
(Que está cara)
E ela de cara
Com tamanha insensatez
E tanta insensibilidade
Percrustada e descoberta
No meio da embriaguez
Dá piti e vai embora
Jura que se separa
Até o final do mês
Ele promete mundos e fundos
(Pra ela e pra todo mundo)
Chega em casa imundo
Chamando urubu de meu lôro
E periquito de pequinês
Acorda numa sede louca
Sem lenço, documento ou lembrança
De qual sorte virou freguês
Mas ela com dedo em riste
Esconde, é claro, que está triste
Que malandro aqui não tem vez

06/08/07

domingo, 5 de agosto de 2007

O transbordo

Inocente
Até que se prove o contrário
Eu tiro minha culpa
De dentro do teu armário
Sem fé, apego ou desesperança
Tu descobres que já não sou criança
Que brinco com fogo e me queimo
Vivo em desassossego
Não me escondo, não temo
Tropeço pelo caminho
Ébria de insatisfação, extâse e vinho
Me jogo do penhasco
Me espatifo no chão
Me quebro em três mil pedaços
Me perco, me acho
Seguro tua mão
Volto a tona
E enfrento a lona
Dessa vidinha clichê
Em que se cai e se levanta
Onde entre rimas se dança
Novela mexicana
Azeda, tamarinda
Às vezes doce de coco
Com pinta de obra prima

05/08/07